domingo, 24 de agosto de 2014

A nova velha política


lula
Por Mary Zaidan
Política no Brasil sempre foi personalista e, não raro, os partidos políticos são satélites girando em torno de personas. O PTB de Getúlio Vargas, o PDT de Leonel Brizola, o PMDB de Ulysses Guimarães são alguns exemplos. Mas nesse quesito o Partido dos Trabalhadores é imbatível: sem Lula o PT não respira. O horário eleitoral dito gratuito no rádio e na TV é só mais uma prova disso.
Onipresente, Lula ocupa todos os espaços. É destaque nos programas de Dilma Rousseff e dos governadores. Pede votos para deputados federais e estaduais. Já apareceu no modelito casual – jaqueta branca e iluminação brilhante, com ares de divindade -, de terno escuro, sério e contido, de obreiro ao lado de sua pupila-presidente.
Faz todo e qualquer papel. Elogia os seus, atiça adversários, desanca com a mídia. Tudo gira em torno dele. A overdose é tamanha a ponto de confundir o eleitor desavisado.

A liderança de Lula é indiscutível. Mas exercida em antigos moldes, com trejeitos e linguagem que deram nova roupagem ao caciquismo. É ele que dá as ordens, que monta alianças e palanques, que atrai financiadores. É ele que inventa candidatos e elege postes.
É bom de voto e para pedir votos. Mas para por aí. Os sucessos eleitorais dos afilhados de Lula se traduziram em governos avaliados como medíocres ou pior do que isso.
Criou Dilma, cujo governo débil ameaça o patrimônio do patrono. Um quarto dos brasileiros consideram o governo dela ruim ou péssimo e 34% rejeitam a sua candidatura. Números que devem fazer Lula se arrepender de não ter combinado com a criatura que a brincadeira duraria por um único quadriênio. Sem saída, esforça-se para recriá-la.
Tirou Fernando Haddad da cartola. Venceu e amarga os 47% de rejeição que o prefeito paulistano ostenta antes de completar o seu segundo ano de mandato. Agora, tenta – com aparições excessivas no horário eleitoral – emplacar Alexandre Padilha no estado de São Paulo.
Poderá até lograr novo êxito. Mas os governos de suas invencionices justificam as pulgas que mordiscam as orelhas dos paulistas e talvez expliquem por que Padilha não conseguiu ultrapassar 5% das intenções de votos a 40 dias das eleições.
Lula é dono do PT. E revés eleitoral algum muda essa condição. Que o diga a fragorosa derrota que o então governador Eduardo Campos impôs a ele na disputa municipal do Recife, há dois anos.
Campos, morto há duas semanas, era dono do PSB. Sua candidata-sucessora Marina Silva quer ter um partido para chamar de seu, mesmo que vença as eleições com a sigla que lhe deu guarida.
Eis o mistério da nova política.
Mary Zaidan é jornalista. Trabalhou nos jornais O Globo e O Estado de S. Paulo, em Brasília, e na Agência Estado (SP).

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