
Do Josias de Souza
Acusado em plena campanha eleitoral de operar a prospecção de
propinas em contratos da Petrobras, o tesoureiro do PT João Vaccari Neto
insinuou que, para não constranger Dilma Rousseff, abdicaria do
Conselho de Administração de Itaipu Binacional. Sobreveio o segundo
turno da eleição presidencial. E nada. Na última sexta-feira (31),
Vaccari mandara dizer que, finalmente, efetivara sua saída. Foi um
desligamento de gogó.
Decorridos quatro dias, Vaccari continua plugado no organograma da
estatal. Na madrugada desta terça-feira (4), seu nome ainda adornava o
quadro de
conselheiros exposto no site da companhia (veja na ilustração no alto).
Com isso, o companheiro tornou-se uma oportunidade que a oposição
aproveita.
Em
artigo publicado
no domingo (2), Fernando Henrique Cardoso criticou Dilma por fazer pose
de “campeã da moralidade pública” depois de ter silenciado “diante da
afirmação feita no processo sobre o petrolão de que o tesoureiro do PT,
senhor Vaccari, era quem recolhia propinas para seu partido.”
O ex-presidente tucano lecionou: “Havendo suspeitas, vá lá que não se
condene antes do julgamento, mas até prova do contrário deve-se afastar
o indiciado, como fez Itamar Franco com um ministro e eu fiz com
auxiliares, inocentados depois, no caso Sivam. Então por que manter o
tesoureiro do PT no conselho de Itaipu?”
A cadeira de conselheiro em Itaipu é uma das sinecuras mais cobiçadas
da República. Integram o colegiado doze pessoas. Reúnem-se a cada dois
meses. E embolsam uma remuneração mensal na casa dos R$ 20 mil. Vaccari
escalou o Éden em 2003, graças ao amigo Lula. Foi, por assim dizer, um
prêmio de consolação.
No alvorecer do primeiro mandato de Lula, Vaccari era presidente do
Sindicato dos Bancários de São Paulo e secretário de Finanças da CUT, o
braço sindical do petismo. Na fase de composição do governo, o PT
cogitou alçá-lo ao posto de presidente da Caixa Econômica Federal.
Barraram Vaccari dois obstáculos: o nariz torcido de Antonio Palocci,
então ministro da Fazenda, e a falta de diploma universitário. Os
estatutos da Caixa exigem que o presidente tenha passagem pelos bancos
de uma universidade. E Vaccari não preenchia esse quesito.
Para não deixar o companheiro ao relento, Lula abrigou-o em Itaipu.
Então ministra de Minas e Energia, de cujo organograma pende a estatal,
Dilma não se animou a imitar Palocci na resistência. E Vaccari frequenta
o paraíso da remuneração alta com trabalho miúdo há quase 12 anos. Se
as circunstâncias não o arrancarem do posto, como fizeram com Sérgio
Machado na
Transpetro, o mandato de Vaccari vai até 2016.
Desde maio, o tesoureiro petista desfruta nas reuniões bimestrais do
conselho de Itaipu da companhia do ministro Aloízio Mercadante. É comum a
prática de vitaminar os salários de ministros acomodando-os em
conselhos de estatais. Chefe da Casa Civil de Dilma, ele ocupou a vaga
de Roberto Amaral, cujo partido, o PSB, migrara para a oposição.