sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Confrontadas com Ruth Cardoso, as duas criaturas de Lula são a seleção do Brasil no dia daquele jogo contra a Alemanha

Augusto Nunes
O trecho do Roda Viva protagonizado em 1999 por Ruth Cardoso figura entre as incontáveis evidências de que milagres civilizatórios podem ocorrer em qualquer grotão do planeta. A admirável paulista de Araraquara, que se casou muito jovem com o carioca Fernando Henrique Cardoso, seria a única primeira-dama a desembarcar em Brasília com profissão definida, luz própria e opiniões a emitir ─ sempre com autonomia intelectual e, se necessário, elegante contundência.

Durante oito anos, o brilho da mulher que sabia o que dizia somou-se à luminosidade da antropóloga respeitada por colegas do mundo inteiro para clarear o coração do poder. A maioria dos jornalistas baseados em Brasília precisou de algum tempo para descobrir com quem estava lidando. No fim de 1994, por exemplo, os entrevistadores enxergaram uma blague na justificativa apresentada pelo presidente eleito para a viagem à Rússia: “Vou como acompanhante da Ruth”. Ela participaria como palestrante de um congresso de antropologia promovido em Moscou.
Nenhum repórter se animou a acompanhar a palestra. Perderam todos a chance de descobrir que Ruth era muito mais que a mulher do n° 1. Seria a melhor e mais brilhante das primeiras-damas se não tivesse abdicado do título já no dia da posse do marido. “Isso é uma caricatura do original americano, esse cargo não existe”, resumiu. Sem pompas nem fitas, longe de fanfarras e rojões, dedicou-se à montagem do impressionante conjunto de ações enfeixadas no programa Comunidade Solidária.
Em dezembro de 2002, os projetos em execução mobilizavam 135 mil alfabetizadores, 17 mil universitários e professores, 2.500 associações comunitárias, 300 universidades e 45 centros de voluntariado. Ruth Cardoso acabou simbolicamente promovida a primeira-dama da República no dia da morte que pareceria prematura ainda que tivesse vivido mais de 100 anos. A cerimônia do adeus comprovou que o Brasil se despedia, comovido, de alguém que o fizera parecer menos primitivo, mais respirável, menos boçal.
Ela merecia ter morrido sem conhecer a fábrica de dossiês cafajestes da Casa Civil chefiada por Dilma Rousseff. Instruída para livrar o governo da enrascada em que se metera com a gastança dos cartões corporarativos, Dilma produziu um papelório abjeto que tentava reduzir Fernando Henrique e Ruth Cardoso a perdulários incuráveis, decididos a desperdiçar o dinheiro da nação em vinhos caros e futilidades gastronômicas. Dilma foi a primeira e única personagem brasileira a agredir uma mulher gentil, que sempre soube conciliar a firmeza e a suavidade ─ e também por isso foi tratada com respeito até por ferozes inimigos do marido.
Dilma propôs mais de uma vez que o país comparasse FHC a seu padrinho. “O Lula ganha de 400 a 0″, previu a vidente de quermesse. Se o prognóstico do neurônio solitário fizesse sentido, o fabricante do poste instalado no Planalto não estaria fugindo há 13 anos de um debate público com o antecessor. O campeão mundial de bravata e bazófia sabe que seria nocauteado já nos primeiros minutos desse confronto entre a seriedade e o deboche, entre a análise e o falatório bocó, entre o conhecimento e a ignorância, entre o moderno e o antigo, entre o real e o imaginário.
Como Lula foge de duelos com FHC como o diabo da cruz, que tal comparar Ruth Cardoso a Dilma Rousseff, que não diz coisa com coisa? Ou a Marisa Letícia, que nada tem a dizer ─ e, como prova o vídeo abaixo, é incapaz de decorar o nome completo de um navio? Confrontadas com uma brasileira que melhorou o país, as duas criaturas de Lula lembram a seleção brasileira de futebol naquele 7 a 1 contra a Alemanha.
A mulher de Fernando Henrique vive na memória nacional como um exemplo comovente de dignidade, inteligência e sabedoria. Dilma e Marisa Letícia talvez sejam lembradas por historiadores detalhistas como dois ícones da Era da Mediocridade. A dupla cabe num único asterisco.

Na rota do Atlântico


José Casado

Publicado no Globo
Quinta-feira passada houve um pequeno alvoroço na sede do Banco Carregosa, na cidade do Porto (Portugal), quando policiais exibiram um mandado de busca. A casa bancária mais antiga da Península Ibérica entrou no mapa das investigações de corrupção e lavagem de dinheiro conduzidas de forma coordenada em Portugal, Suíça e França.
No alvo está o português Antonio José da Silva Veiga, diretor da Asperbras, empresa paulista percebida na Europa e na África como um dos braços financeiros da cleptocracia comandada por Denis Sassou Nguesso, que há 47 anos domina o poder na República do Congo. Veiga foi preso na semana do carnaval, em Lisboa, junto com o sócio Paulo Santana Lopes, horas depois de oferecer 11 milhões de euros (R$ 48,9 milhões) pelo controle do Banco Internacional de Cabo Verde, espólio do falido Grupo Espírito Santo.
O diretor da empresa brasileira não declara bens em Portugal, onde enfrenta atribulações fiscais desde a época em que intermediava contratos de jogadores de futebol como Luis Figo e Jardel, entre outros. No entanto, foram apreendidos oito milhões de euros (R$ 35,5 milhões) em espécie, mais quatro Porsches, Mercedes e um Bentley, além de congelados saldos bancários de dez milhões de euros (R$ 44,4 milhões).
Veiga atuava como agente plenipotenciário de José Roberto e Francisco Carlos Jorge Colnaghi, de Penápolis (SP) — sócios mais visíveis do grupo Asperbras. Sua intimidade com o clã Nguesso, em especial com Claudia, filha do ditador, assegurou aos Colnaghi um bilhão de dólares (R$ 4 bilhões) em contratos públicos no Congo. A devassa interrompeu novos projetos, para uma rede bancária e hospitalar.
A Asperbras foi grande beneficiária do perdão concedido dois anos atrás por Dilma Rousseff para uma dívida de US$ 280 milhões que o Congo mantinha com o Brasil. Nessa anistia, chancelada em tempo recorde e sem debate no Senado, ficou perceptível a influência de Antonio Palocci, ex-ministro da Fazenda de Lula e ex-chefe da Casa Civil de Dilma. Palocci tem relações fluidas com os Colnaghi. Chefe das campanhas de Lula (2002) e Dilma (2010), Palocci era usuário dos aviões da Asperbras. Um dos Colnaghi, José Roberto, foi personagem do inquérito do mensalão sobre pagamentos realizados (via Angola) ao publicitário Duda Mendonça, na campanha de Lula em 2002. Ano passado, em outra investigação, a Justiça identificou remessas da Asperbras, no Congo, para a agência Pepper, que atende ao PT desde a campanha de Dilma em 2010.
Alto risco é um derivativo natural dos laços com a cleptocracia Nguesso, hegemônica no país produtor de petróleo e de diamantes sem origem certificada — “de sangue”, moeda corrente na lavagem de lucros do tráfico.
No poder, os Nguesso construíram uma das maiores fortunas da África. Suas propriedades incluem 66 imóveis de luxo no eixo Paris-Provence-Riviera, segundo o Tribunal de Paris. A família cultua ostentação: Antoinette, primeira-dama, gastou um milhão de euros na celebração dos seus 70 anos em Saint-Tropez. Carla Bruni Sarkozy foi o destaque.
A ação europeia que levou à prisão do diretor do grupo brasileiro Asperbras, sob suspeita de corrupção e lavagem de dinheiro, desenvolve-se sob um sugestivo codinome policial: “Rota do Atlântico”.

Pode trocar?


Bancada religiosa emplaca mudanças contra o aborto e ideologia de gênero

Gazeta do Povo


Confirmando a inclinação conservadora da atual legislatura, o plenário da Câmara dos Deputadosaprovou nesta quinta-feira (18) alterações contrárias ao aborto e à ideologia de gênero na medida provisória 696/2015, que reduziu e reagrupou o número de ministérios do governo.
As mudanças se deram no capítulo que trata do ministério das Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos, que unificou três antigas pastas do governo.
A primeira mudança introduziu na MP a determinação de que a pasta, na coordenação da política nacional de direitos humanos, leve em conta as diretrizes não só do Programa Nacional dos Direitos Humanos, mas também da Convenção Americana sobre Direitos Humanos.

O presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que é da bancada evangélica, declarou a emenda aprovada sem a realização de votação nominal, se fiando na manifestação dos deputados presentes no plenário. A votação nominal poderia ter sido solicitada, mas as bancadas contrárias ao texto, entre elas o PT, não fizeram o pedido a tempo.
A emenda, assinada pelo deputado Alan Rick (PRB-AC), da bancada evangélica, tem o objetivo de ressaltar o ponto da convenção que fala do direito à vida “desde o momento da concepção”.
No Brasil o aborto é crime, com exceção dos casos de estupro, risco de morte da mãe e nos casos de fetos anencéfalos. A bancada religiosa faz intenso lobby no Congresso e no governo contra qualquer alteração liberalizante ou projeto de descriminalização.
Já a segunda mudança foi a voto. Por 188 votos contra 166, os deputados aprovaram a retirada da MP da previsão de que o ministério das Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos planeje “a incorporação da perspectiva de gênero” na promoção da igualdade entre mulheres e homens.
A bancada evangélica foi aos microfones dizer que o texto representava a destruição da família brasileira. Para o deputado João Campos (PSDB-GO), o ministério pode promover políticas direcionadas à comunidade LGBT, “mas ter a ideologia de gênero como diretriz é que não dá”.
Deputados de partidos de esquerda protestaram: “Na próxima vamos eleger um aiatolá aqui”, ironizou Ivan Valente (PSOL-SP). “Esse fundamentalismo tem que acabar no Congresso Nacional”, reforçou Jandira Feghali (PC do B-RJ).
A medida provisória diminuiu o número de ministérios do governo Dilma de 39 para 31. O texto agora segue para votação no Senado.

É INCOMPREENSÍVEL A ATITUDE DO CIDADÃO LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA

O propósito do título destas linhas é lembrar que, na realidade, não existe, a não ser como mera homenagem, e mesmo assim passível de ser subtraída a qualquer instante, o título de “ex-presidente”. Lula, hoje, é um cidadão comum.

Tenho sido desafiado, frequentemente, em primeiro lugar, a (ainda) acreditar em meu país e, depois, a dizer o que penso da possibilidade de ser decretada a prisão de Lula na operação Lava Jato. A primeira resposta é positiva. Claro que acredito em meu país! Pelo tempo já vivido, disponho de sobejas provas para pensar assim. Isso, porém, não assegura, pelo menos a mim, uma longa vida, posto que já a vivo. Ela me leva a acreditar em um futuro melhor, não para mim, insisto, mas para meus filhos e, sobretudo, meus netos. E é óbvio que incluo aqui os milhões de jovens que querem dar a este país um rumo seguro.

Quanto à segunda, nego-me a entrar numa questão que divide os brasileiros. Considero que Lula, embora (ele) possa pensar assim (“Neste país, não tem uma viva alma mais honesta do que eu”...), nunca esteve, não está, nem nunca estará acima de qualquer suspeita.

Lula, portanto, não está sendo, agora, injustiçado, como muitos dizem – sobretudo no governo Dilma –, nem, por enquanto, existe denúncia formal contra ele. Ele, simplesmente, vai se tornando o alvo principal das investigações na Lava Jato e há (embora possa haver, também, motivos políticos) indícios claros de que o ex-presidente meteu os pés pelas mãos. Pode até não vir a ser preso (qualquer outro brasileiro, na situação dele, já estaria em cana), nem mesmo ser processado por algum crime, mas, politicamente, ele se destruiu – o que não quer dizer que esteja morto para sempre. Lula é um animal político.

O que mais impressiona é que o ex-presidente, além de inteligente, é esperto, e só chegou onde chegou porque, até a operação Lava Jato, soube ser mais do que esperto ao driblar situações constrangedoras, como, por exemplo, as dificuldades que encontrou no mensalão. Daqui pra frente, se bobear, a esperteza – como se diz cá nestas Gerais – finalmente acabará e, sem compaixão, engolirá o dono.

Lula, às vezes, parece que tem parte com o demônio. Considera-se, noutras vezes, de verdade, um enviado de Deus. Excluídos os sobas que o cercam, políticos, ministros ou não, por ele fala apenas uma entidade – o (seu) Instituto Lula, que se transformou numa fábrica de dinheiro. Ele mesmo fica silente e nada diz a respeito da última reunião do conselho político de seu partido, que, embora pressionado por petistas que ainda acreditam nos principais fundamentos do PT, deixou de abordar as denúncias contra seu maior, único e principal líder.

Não vou entrar noutras acusações contra Lula, que já estão entregues ao Poder Judiciário. Todavia, quanto ao sítio em Atibaia e ao apartamento no Guarujá (que bom gosto!), não se pode deixar de dizer que nenhum brasileiro que tenha ocupado o cargo de presidente da República poderia aceitar o que, claramente, o ex-presidente aceitou. Dono, de direito ou de fato desses imóveis, o que aconteceu é, para ele, extremamente comprometedor. A titularidade de direito de ambos os imóveis, que só se faz por meio do registro, fácil de ser provada, e é o que um dos sócios do sítio quer fazer agora, nada esclarecerá a respeito das denúncias repletas de indícios retumbantes.

Um dia, a verdade virá à tona e com toda sua força. Não seria muito melhor que Lula a aceitasse logo?

CÂMARA CANCELA ASSINATURAS DE JORNAIS E ELEVA VALOR DA VERBA DE DEPUTADOS


DEPUTADOS PODERÃO USAR VERBA ADICIONAL DE R$ 2,28 MI PARA ASSINAR JORNAL

Em defesa, Dilma acusa PSDB de fazer “uso político da Justiça Eleitoral”


Em manifestação apresentada nesta quinta-feira (18) à Justiça Eleitoral contra pedido de cassação da chapa presidencial, a presidente Dilma Rousseff acusou o PSDB de fazer “uso político da Justiça Eleitoral”.
Segundo a defesa da petista, o partido de oposição, inconformado com a derrota eleitoral, busca obter “perante a Justiça Eleitoral aqueles inúmeros votos” que não conseguiu na urna.
A primeira frase da peça jurídica, de cerca de 50 páginas, também faz referência ao principal argumento do governo federal de que a oposição não aceitou a derrota no ano passado.
“Na democracia, mais importante do que vencer as eleições é saber reconhecer a derrota imposta pelo voto popular”, diz.
A defesa afirma ainda que não se pode permitir que o processo judicial “seja utilizado como palco de discurso político-partidário, como pretende” o partido de oposição.
E classifica as acusações levantadas pelo PSDB, de abuso de poder político e econômico, como insignificantes e como “ilações fantasiosas” e pede que os responsáveis pelo processo sejam responsabilizado pelo ” manejo temerário” da ação de cassação.
“Face a inexistência de qualquer prova juntada aos autos de que a chapa vencedora tenha incorrido em qualquer ilegalidade ou mesmo tenha abusado do poder econômico por qualquer meio, mesmo que minimamente, o que existe são ilações fantasiosas que se arvoram em premissas”, critica.